Afinal, qual a finalidade de sabermos sobre nosso passado? Por que eu tenho que saber o que foi feito centenas de anos atrás?

Um dos grandes problemas que enfrentamos hoje é a falta do movimento cognitivo próprio, ou seja, a movimentação sinapsial voluntária, principalmente no sentido de criação; não tão somente quando falamos de criatividade, mas sim quando falamos em mudanças.

Ouvimos em coro que se deve haver mudanças na educação, no sistema educacional, na política, na saúde, enfim, em tudo, mas somos incapazes de dizer quais são essas mudanças. Isso nos leva a crer que o que está gritando é o nosso instinto animal de sobrevivência, querendo nos alertar para algo, querendo nos impulsionar para algo!

Vemos uma incapacidade de reais mudanças. Mas fico sempre me perguntando: como mudar? O que mudar? Quando mudar?

Uma das coisas que ficou latente em minha vida escolar foi não gostar de história – história foi minha primeira nota baixa no ensino fundamental. Na verdade, hoje enxergo que o problema não estava na história, mas sim na aplicação dela na vida: não sabia o porquê daquilo; o porquê de desprender tanta energia numa coisa que já foi, ficou no tempo.

Hoje fica claro que a importância de se aprender a história é criar a memória evolutiva, no sentido de se ter “arquivos” dos erros, tal qual um “log” de um software, assim poder corrigir esses erros e/ou poder evita-los no presente e, por conseguinte, termos um futuro melhor – ou termos tempo e conhecimento para corrigir novos erros.

Relendo a nossa história, principalmente traçando paralelos com a história de outros países como a Argentina que, interessantemente tem uma história política quase “gêmea” à nossa, pude fazer essa ligação entre a história, seus erros e um possível nexo causal: o processo de aprendizagem.

Quando falo no processo de aprendizagem, não estou falando tão somente do sistema educacional, mas sim no processo como um todo, desde de sua principal base: a família.

Sabe-se que não somos dotados somente da memória encéfala, há evidências de que há a chamada memória celular, tal qual também é conhecida a memória muscular. Nesse sentido podemos afirmar que estamos em processo de aprendizagem desde a concepção, concorda?

Quando da mais tenra idade o que nos é ensinado hoje? – apenas como reflexão.

Não sei se é um dom ou um castigo, mas sou dotado de super memória o que me leva a ter lembranças desde a fase do engatinhar. Lembro que até os seis ou sete anos nada era ensinado como conhecimento de aprendizado, a não ser algumas regras de comportamento e sobrevivência, tal como não enfiar o dedo numa tomada elétrica.

Quando da fase escolar começamos a desenvolver uma certa preguiça cognitiva – somos obrigados a absorver, e apenas absorver, aquela carga pesada de conhecimento registrado ao longo dos séculos de evolução e aprendizado humano.

O sentimento de obrigação pela obtenção de um diploma ou um título nos leva a aprendermos que isso é o mais importante; sem enxergar a verdadeira essência do conhecimento: o aprender. Mas há quem irá discordar e afirmar com todas as letras que há aprendizado e que para isso até provamos o aprendizado. Eis aqui ledo engano: quando se estuda para a prova não se aprende.

É óbvio que não podemos generalizar nem tão pouco afirmar que isso ocorre em 100% das pessoas. Esse tipo de afirmação seria totalmente leviana e contraproducente. Mas isso passou a ser regra cultural. Busque em suas memórias e lembrará de professores e até seus pais dizendo: estude tal coisa porque tal dia será a prova.

Oras, estudar para provar algo a alguém e não para aprender é como dizer que meu conhecimento, então, é um elemento neutro num conjunto vazio? É quase isso. Até porque o conjunto é vazio e não haverá sequer o elemento neutro!

Comecei falando da fase embrional, passando pela fase do contato estrito familiar até o ensino fundamental, mas isso se replica por toda a vida acadêmica; há professores universitários que replicam os dizeres: estudem porque vai cair em prova. Estranhamente e de forma bem paradoxal ouvi de um professor, em minha primeira graduação, que ali se chamava Universidade justamente por termos que nos acostumar com um universo novo de conhecimentos e vivências, mas também ali se replicou a afirmação.

Certa vez ouvi de um professor, numa dessas descargas mentais (rolando o feed do Instagram), que estudar era um movimento coletivo e passivo, mas que aprender era totalmente solitário e ativo. Refletindo sobre essa afirmação cheguei a conclusão que culturalmente não nos é mostrado um definição clara do que é realmente o aprender, mas sim que somos obrigados a passar por fases na vida onde são despejados conteúdos e mais conteúdos e sequer quem os despeja sabe a real finalidade daquilo e esse estudar coletivo se transforma em uma fase ruim na vida das pessoas; uma fase totalmente sem sentido, o que abre a oportunidade da dispersão em outras coisas que passam a fazer mais sentido que aprender.

Mas afinal o que deve ser feito, então? Tendo em vista que as sociedades são dotadas de milhares de seres humanos e que cada um já teve uma carga de aprendizado gravada em suas células e em seu encéfalo, não podemos simplesmente criar uma regra educacional e dotá-la de super poderes ao ponto de afirmar que aquilo é a meca da educação e irá salvar a nossa sociedade de todos os problemas. Esse tipo de afirmação soa muito familiar, principalmente em épocas de eleições, né?

Talvez uma das soluções para muitos problemas é começarmos, por nós mesmos, a tentar entender o processo de aprendizagem como uma dádiva humana para sua evolução e que, tal qual um super computador, as coisas que foram feitas no passado devem estar gravadas e terem sim um sentido; uma finalidade. Mostrar às nossas crianças, e a nós mesmos, que aprender é bom e não é uma obrigação imposta pela sociedade, mas sim uma obrigação da espécie humana para sobrevivência, principalmente no futuro. Extirpar de uma vez por todas a frase “estude isso porque vai cair em prova”! E começar a adotar a explicação: estude isso porque será importante para entender melhor aquilo e, entendendo melhor aquilo, não cairás mais nesse e naquele erro.

Essa possível solução incorre na força de uma instituição muito falada nos últimos tempos, mas pouco protegida: a família. Mas onde a família entra nisso tudo? Vocês já viram aqueles documentários sobre animais onde mostra a vida, o dia a dia deles, desde o nascimento, passando pela vida, caça, alimentos e novamente pela reprodução? Puderam perceber como a prole é tratada no inicio da vida; como os conhecimentos de sobrevivência e caça são passados? Não são apenas conhecimentos genéticos adquiridos da espécie e só por ser daquela ou de outra espécie. São conhecimentos passados de pais para os filhos. A ciência diz: o ser humano é um animal. Por que, então, que a chamada evolução nos distancia disso? Isso não é a nossa essência e base da nossa sobrevivência? Pois é. Desse conhecimento obtenho a certeza de que tudo começa na família.

Corrigir a ideia de estudar para passar numa prova ou estudar por uma obrigação da sociedade, desde a mais tenra idade, principalmente no início da idade escolar, é um passo gigantesco no processo de aprendizagem e que irá refletir, certamente, na evolução da espécie humana. Mostrar para uma criança que aprender é mais que deixar informações na memória volátil apenas até a data de se provar algo e sim criar conteúdo e conhecimento para a produção de soluções na vida, na sociedade e na espécie é a obrigação que temos enquanto seres humanos para começarmos a sonhar com um presente sólido e um futuro promissor. Entender a história e não apenas gravar datas e fatos é base de conhecimento para soluções e correção de erros – tomamos como exemplo um navegador que encontra pela primeira vez uma ilha em seu caminho: ele irá anotar em sua carta náutica para que da próxima vez faça um caminho diferente prevendo aquele obstáculo.

Novamente para que reste claro: extirpar a ideia de estudar para uma prova, apenas para provar algo, ou para buscar um diploma. Imbuirmos de ideia de que acumulo de informações tão somente para essas finalidades é um vazio e que conhecimento, principalmente dos erros passados, é uma base para corrigi-los e tomarmos outros caminhos; melhores.

Espero que tenha gostado desse texto e que continue a visitar meu Blog. Obrigado!

Deixe um comentário